
Imagem da década de 1930
“Caçador é um Rio pequenino que deu nome à minha cidade”
Hino de Caçador, SC
Em 30 de janeiro de 1985 torno-me barriga-verde. Não só porque meus pais e irmãos também o são, mas sim, porque assim como eles, também sou barriga-verde. Apesar de nossas barrigas não possuírem qualquer matiz esverdeada, quem sabe que nascemos em Caçador e, por conseqüência conhece um pouco da história de Santa Catarina, não sabe ao certo o porquê da barriga-verde, só que ela existe na gente.
Como meus pais são caçadorenses, desde pequeno tive contato com estória da cidade. Foi-me ensinado que
o município de Caçador mostra em sua história desde seu princípio, a preocupação da população local com o meio-ambiente. Ainda no início, quando Caçador era disputada pelo Paraná e Santa Catarina, os habitantes locais revoltaram-se contra a Companhia Ferroviária e a indústria madeireira para evitar a devastação dos pinhais nas marginais dos trilhos.
O orgulho desta revolta dos habitantes locais é tamanho que em 18 de março de 1974 a cidade criou o Museu do Contestado. Lá, em visitas escolares, pude ter um contato maior com a estória de minha cidade. Não só pelo acervo sobre o período da construção da Ferrovia do Contestado e desta revolta, mas também pelo acervo lítico e cerâmico das tribos indígenas que habitavam a região do Alto Vale do Rio do Peixe, região esta em que Caçador se situa. Contudo, a respeito destas tribos, o que nos é ensinado é que “às margens do Rio do Peixe viviam grupos primitivos, Kaingang e Xokleng, que foram substituídos pelos desbravadores que começavam a chegar a partir o ano de 1881”.
A parte dos desbravadores eu pude tirar de letra, já que Giovani Leonardo Schiavini é um nome bem italiano que denota minha descendência paterna. Meus tataravôs saíram de Bérgamo, por volta de 1889, e chegaram à antiga colônia de Alfredo Chaves, no Rio Grande do Sul, para a colonização do sul do país, logo após a abolição da escravatura. Meu a avô circulou pelo Rio Grande do Sul e Santa Catarina até chegar a Caçador, de estabeleceu família.
Contudo, só pude compreender meu lado caboclo há pouco tempo. Poderia atribuir isso a certa omissão de minha mãe quanto às suas origens – se atualmente não pudesse compreender que nossa história está diretamente ligada à história do município, ou melhor, à estória que é contada pelo município. Bugre é como também chamamos os caboclos, que é entendido pelos munícipes de lá como habitante local. Com o passar dos anos tive um contato maior com a parte materna de minha família. Vi fotos antigas de minha avó, que faleceu quando eu mal completei 7 anos; pude perceber alguns traços indígenas em seu rosto, e lembro-me de ouvir minha mãe que ela foi criada na roça. Assim, minha mãe passou parte da infância no mato. Diferentemente de meu pai, eu e meus irmãos, que nascemos e crescemos na cidade. Como Caçador não é totalmente urbanizado, pude desfrutar de momentos melancólicos em suas áreas mais afastadas. Contudo, sempre gostei da urbe.
Com a separação de meus pais em 1992, meu pai acabou ficando a guarda minha e de meus irmãos. Minha mãe veio à São Paulo morar com uma de suas tias, o que garantiu à meus irmãos e eu a possibilidade de sempre visitá-la nas férias escolares.
Dos três irmãos, o Davi, pouco mudou de escola. Em compensação, eu e a Jordana, tivemos uma grande rotatividade entre as escolas da cidade, já que para nossos pais, a educação era o maior bem que poderiam deixar a nós. Por sermos mais novos, sempre acatamos as mudanças de escola, contudo, a idade nos mostrou que esta dança das cadeiras entre os antigos Colégios Marista Aurora, Nossa Senhora Aparecida e o Colégio Adventista era muito mais por causa da relação custo-benefício do que qualquer outra coisa argumenta por nossos pais.
Em 1996 mudamos migramos para a rede pública de ensino, no antigo Colégio Estadual Senador Salgado Filho, onde meu pai e meus tios paternos estudaram. Apesar de a cidade ser pequena, assim como a distância entre o Salgado Filho e o Colégio Marista Aurora que é de apenas duas quadras, perdemos contatos com os ex-colegas. Como somos seres sociáveis, estabelecemos novas amizades com os novos colegas do Salgado Filho e, juntos, presenciamos a reforma da escola, com chegada do atual ensino médio do Colégio Estadual Dom Orlando Dotti, que deixou as dependências do Aurora – onde o estado pagava um aluguel para ocupar parte das salas ociosas do colégio marista. Assim, em 1997 o Senador Salgado Filho deixa de figurar essa escola estadual caçadorense.
Em dezembro de 1997 mudávamos de casa. Com o término da construção da casa de meus avôs e as dificuldades que o pai tinha em manter o aluguel do apartamento em que, desde que me conheço por gente, morávamos, e fomos morar na antiga casa de meu pai, agora, nossa casa. A casa fica do lado da oficina de radiadores que meu montou, e até hoje meu pai trabalha; não é tão grande quanto à antiga, mas já era conhecida. Podíamos transitar livremente pelos cômodos sem preocupar a vó, já quando ela morava lá, nossa circulação não era permitida entre os quartos. Passávamos pela porta da cozinha somente quando precisávamos ir ao banheiro ou em ocasiões muito específicas.
Mas a grande mudança ocorreu mesmo um ano depois, naquele mesmo mês de 1998, a mãe nos convidou para morarmos em São Paulo. Os atritos com a Cleonice, mulher do pai, que apesar de não morar conosco, estavam desgastando nosso relacionamento com ele. Nesse momento a mãe resolveu intervir e, com o apoio da vó, mãe do pai, viemos morar em São Paulo.
Apesar já conhecermos a cidade, conhecíamos São Paulo como crianças que vinham passar as férias aqui, não como moradores. Minha vida mudou!